sábado, 4 de maio de 2013

Vida, morte e sacadas de apartamento



Sentei na cadeira de balanço da sacada do meu apartamento, apreciando o espetáculo de luzes e ruídos violentos que apenas a vida em uma cidade grande pode proporcionar, não sei bem o porquê, mas sempre gasto cerca de uma hora da minha noite ali. Talvez eu goste de observar o movimento das coisas, visto que a minha vida não tem muito disso. Mas não há quem negue, observar uma cidade movimentada de longe sempre pode fazer você refletir sobre vários assuntos.

Quer dizer, quando você está em uma sacada do sétimo andar, tudo o que você consegue ver são pontinhos indo para lá e para cá, e é fascinante quando você pensa que cada um deles é uma existência independente, com seus próprios problemas, sonhos e pensamentos. Mas isso não importa, porque, como disse, visto de longe todo mundo é só um pontinho indo para lá e para cá, e quem é que tem tempo de ver cada um de perto?

Certa noite uma moça já de idade tentou atravessar a faixa de pedestres, o sinal estava vermelho,  a via estava vazia,  tudo estaria ok se não aparecesse um jovem bêbado o bastante para não perceber o sinal vermelho, muito menos a senhora. Nos primeiros instantes depois do atropelamento, praticamente todos os olhares convergiram para o local do acidente, a moça estava obviamente morta com o corpo estirado no chão ensanguentado.

Mesmo que por um instante, o fluxo constante e aleatório de indivíduos daquela avenida sofreu um baque, por alguns momentos, a vida deu uma pausa, como em uma homenagem à perda de mais um pontinho que andava para lá e para cá. Mas o fenômeno não perdurou, de pouco a pouco, um a um, os pontinhos recuperaram as suas posições até que toda a avenida se encheu de vida, e quando aquele corpo ocasionalmente for removido, será como se nada tivesse acontecido.

Indiferença? Não vejo dessa forma. Para mim existe um campo de batalha invisível ali embaixo, é a vida, que dá combustível para que cada um se mova livremente, em contraste com a morte, que sempre está por perto para interromper os passos de cada um daqueles indivíduos. Cada um desses pontinhos que observo daqui certamente sabe que não escapará da morte, por isso não há no mundo pessoa que não se abale quando a morte bate na vizinhança.

O fato do movimento não tardar a voltar é a prova de que, não importa o estrago que a morte faça, em menor ou em maior grau, ela nunca consegue parar o fluxo contínuo da vida. É verdade que um dia todas as pessoas nessa rua estarão silenciadas, eu também o serei, mas o fato desse fluxo se manter sempre forte me deixa a certeza de que, nessa guerra invisível, a morte sempre abala, mas também sempre perde, e os pontinhos sempre ali estarão para andar para lá e para cá.   

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